quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Provincianos

É um belo dia de sol, depois de muitos dias sorumbáticos de agosto na capital dos gaúchos. Fecho os olhos, abro coração e ouvidos para harmonizar-me com a sinfonia da vida... E não adianta, por mais que seja frustrante e desolador, não consigo captar a beleza urbana. A sonoridade da cidade, em especial dessa grande cidade, não consegue ganhar meus ouvidos. Não dialoga com minhas memórias ou projeções, não concorda com meus anseios utópicos.

As metrópoles multimídia espalham seu padrão da fala, de hábitos, de vida. E não há maneira de me sentir parte disso. Final de tarde pode-se ir ao shopping ver um cinema, mas eu queria mesmo era puxar um banco pra frente das casa e tomar um amargo dando um saludo para quem passa. Final de semana pode-se colocar as coisas no carro e subir a serra ou descer para o litoral, conforme o tempo, mas a minha vontade era d’emalar os arreios e largar pra campanha com qualquer céu. Meus vizinhos estranham porque divido os sacos de laranjas, as dúzias de ovos e cozinhadas de mandioca que ganhamos pelas andanças.
Nós, provincianos desgarrados, somos assim, buscando na janela a inspiração pra falar dos galpões nos edifícios (parafraseando o “Guri do campo”). E não tem nada a ver com as fantasias “pilchadas até os dentes” do tradicionalismo, dentro das regras da cartilha. Isso é pura representação figurativa do que não é a realidade cotidiana do rural. Ou como a pesquisadora Renata Menasche (PGDR/UFRGS) classifica, são apenas rasgos de uma “tradição inventada”, tão falsa como a saia dos escoceses.

Esse jeito de ser não é gaúcho porque é do Rio Grande do Sul, é sim interiorano, é caboclo e é caipira, como se trataria em outros lugares do país. Porque a maior parte do nosso povo está em cidades de pequeno e médio porte e com características essencialmente rurais, só que o motor da sociedade é feito e guiado pelos urbanos. E aqui vale uma reflexão sobre o que se comenta das pequenas cidades, da necessidade de desenvolvimento e de propiciar acesso a bens e serviços para garantir qualidade de vida... Ora, se na capital anda-se nas belas ruas asfaltadas na velocidade da carroça e a civilidade xinga-se aos berros no trânsito; toma-se um coquetel de remédios para que os pulmões aguentem a poluição, a cabeça aguente o barulho e o corpo aguente a pressão; e quando termina a semana todos entopem as estradas pra fugir; ganha-se mais e gasta-se muito mais ainda. Há mais recursos, e há mais necessidade concentrada de utilizá-los. É isso que querem vender para o interior como cultura universal?
Quando conseguimos falar de nossa aldeia, conseguimos ser universais, isto sim! Porque nenhum “oh, de casa!” é necessário ser traduzido. Por isso não é contraditório ser provinciano e cosmopolita. Assim me sinto. Tenho a necessidade de conhecer outros lugares, dialogar com diferentes vertentes, porque sou desse tempo “pós”... pós-moderno, pós-industrial, de uma sociedade global que procura sua nova identidade no meio dessa miscelânea de crise ambiental na era da informação. Até blog eu fiz pra falar de terra!

Mas viver assim, amontoado, anônimo e embretado em meio ao concreto, não é para provincianos! Quero pensar que estou só de cruzada, tentando captar o que serve, mesmo que seja a saudade...

Vou tomar também as palavras do Mario Eleú, pra lembrar dos meus, de quem tanta saudade sinto nesses tempos de capital...

“Estende a mão, cumprimenta
Também retira o chapéu
Sabe quando muda o tempo
Bombeando as nuvens no céu
 Lá pras bandas da fronteira
 Se parece um João Barreiro
 Zeloso, cuida do pago
 Com cisma de peão caseiro. (...)

Provinciano, pêlo duro, te juro
Sei do teu amor sem fim
Por esta querência amada
E pela vida sossegada

Porque eu também sou assim (...)”

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